Pouco tem se falado sobre como o vírus do Ebola tem o potencial de se espalhar para além das fronteiras da África. Nós, anestesiados pelo cotidiano, infelizmente não temos a real noção do perigo. Falamos de um patógeno impiedoso, identificado pela primeira vez em 1976 às margens do Rio Ebola, cujo contágio ocorre pelo contato direto com fluidos corporais e cuja taxa de letalidade média ronda os 50% — podendo alcançar catastróficos 90% dependendo do surto. O risco é iminente e, ainda assim, parece invisível aos olhos do grande público.
Felizmente, a ciência não dorme. Diferente do cenário de décadas atrás, já estão em andamento e consolidadas muitas pesquisas para tratamentos e imunização. Hoje, a humanidade conta com ferramentas como a vacina Ervebo e tratamentos à base de anticorpos monoclonais, como o Inmazeb e o Ebanga. Mas a existência da cura não anula a tragédia da negligência. Na pandemia de Covid-19, vimos o quanto ficamos à mercê do vírus. Como será com o Ebola se ele decidir testar de forma mais agressiva as nossas fronteiras globais?
A resposta, infelizmente, passa pela política. Existem os governos negacionistas. Existem os olhos altaneiros e gananciosos dos governantes mundiais que insistem em colocar a economia em primeiro lugar, ignorando a máxima de que não há mercado ativo sobre túmulos.
O "laranjão", como bem sabemos, brigou com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Donald Trump oficializou a saída dos Estados Unidos da agência internacional. A medida, cumprindo uma ordem executiva assinada em seu primeiro dia de mandato, em 20 de janeiro de 2025, interrompeu todo o financiamento americano e retirou os funcionários federais da organização, isolando a maior potência global do esforço coletivo de monitoramento de doenças. Talvez por isso a recente Copa do Mundo em território americano tenha passado incólume diante dos olhos do mundo no que tange às discussões sobre biossegurança e prevenção ao Ebola. Abafou-se o debate para que o espetáculo e o lucro pudessem continuar.
E o efeito posterior? Estamos seguros?
A verdade incômoda é que não estamos seguros nem mesmo de nós mesmos. Estamos à mercê das decisões de líderes que preferem o palanque à ciência. A preocupação é genuína e urgente. Não podemos, sob hipótese alguma, baixar a guarda diante de um vírus que outrora já devastou nações inteiras na África Ocidental, ceifando mais de 11 mil vidas em um único surto.
No fim das contas, a única vacina real contra a ignorância e a barbárie é a informação e a cooperação. Ouvir as autoridades sérias da saúde, apoiar a pesquisa científica e valorizar aqueles que promovem e se esforçam diariamente para cuidar da nossa saúde coletiva é o melhor — e talvez o único — caminho a seguir no momento.
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