Toda história deve ter seus personagens, nomes que receberão as glórias e as agruras das descobertas. Santa Luziânia, nossa Luziânia também tem seu personagem número 1. mas antes de revelar muito sobre ele me atenho ao fato de que o território que seria explorado como o futuro Arraial de Santa Luzia já tinha dono. Sim, como não? Faço questão de enfatizar que os povos originários já habitavam as margens do rio Vermelho a muito tempo. Comunidades indígenas inteiras. E eles já sabiam o que enfrentar quando viram os exploradores chegando com a sua sanha de conquistadores. Jaime Sautchuck em sua obra ‘Cruls’ que relata a saga de Luiz Cruls pelo Planalto Central do Brasil, destaca que desde o fim do século XVII, o planalto já estava cortado por trilhas, caminhos e comunidades instaladas. Paulo Bertran Wirth Chaibub, imortal da Academia de Letras e Artes do Planalto, sodalício que tenho a honra de pertencer, fez uma classificação dos períodos e dos viventes de Goyaz. A arqueologia relata que o humano se infiltrou no cenário do Brasil a cerca de 12 mil anos. A existência de esqueletos, inscrições rupestres, utensílios, cerâmicas e ferramentas encontradas em sítios arqueológicos remetem a este fato. Bertan identifica a fase Paranaíba como os caçadores que viviam em uma época mais fria e úmida; a Serranópolis, que durou até os anos 1000 de nossa era; e a jataí, do último milênio, foi onde os indígenas produziram seus utensílios objetos cerâmicos. Nessa fase os povos originários não sobreviviam apenas de coletas de frutos, mas já dominavam a produção agrícola, ou seja, foram os inventores do agro.
Quando falamos dos primeiros habitantes da região onde hoje está Luziânia falo dos indígenas, eram eles que aqui estavam desde tempos memoriais. O tronco preponderante no centro do Brasil parece ser a etnia macro-jê. Jê (como os povos Caiapó, Xavante e Kaingang) e diversas outras famílias e línguas associadas, a exemplo de Bororo, Carajá, Maxacali e Ofaié. O Tupi se concentrava nas regiões amazônicas e no litoral. Mas a variedade de povos e línguas é fenomenal: Tupiniquim, Caiapó, Curumim, Tumbalalá, Kaxinawá, Yanomami, Parintintin, Tabajara, Tiriyó, Macuxí, Potiguara, Anambé, Kaxixó, Ticuna, Tuyuka, Bakairi, Crenacarore, Kalapalo, Kanoê, Enawenê-nawê.
Em 1494 foi criado o Tratado de Tordesilhas, onde Portugal e Espanha dividiram o mundo em dois, quanta arrogância, isso seis anos antes do tal ‘descobrimento’ do Brasil. Os exploradores que chegaram ao Brasil em Pindorama junto com Cabral saíram avançando em direção ao oeste, foram tão longe que em 1750 os espanhóis quiseram acertar novamente os acordos. Aí surgiu o Tratado de Madri, mas aí os portugueses já estavam avançados no que temos hoje como as fronteiras do Brasil a oeste. A linha de Tordesilhas passava a exatos 72 quilômetros a oeste de onde hoje é a praça dos Três Poderes em Brasília. As sesmarias foi um sistema que surgiu em Portugal no século XIV para recuperar a economia e a produção após a peste negra. A prática chegou no Brasil com as capitanias hereditárias a partir de 1534 para povoar e colonizar a nova terra. Foram as bandeiras e as entradas que exploraram além do Tietê. Foram seguindo rumo ao rio São Francisco, Tocantins e Araguaia.
A primeira bandeira que adentrou o território goiano foi a de Domingos Luís Grou, um portugues que já era casado com uma indigena. Em 1593 ele e seu grupo foram mortos por indígenas hostis no sertão de Goiás. As primeiras bandeiras eram com oficiais nomeados pelo coroa portuguesa e tinham recursos e militarização, pequenos exércitos que enfrentavam a resistência indigena a ferro e fogo. Já estamos quase conhecendo nosso personagem. Mas precisamos falar das entradas e bandeiras não oficiais, especialmente as formadas no século XVIII. Eram de aventureiros ou de corajosos em busca de fama e riqueza, esse ignoravam autoridades e as fronteiras estabelecidas. Talvez isso favorece também a interação entre os povos originários. Quando a convivência era mais tranquila rolava até casamento, mesmo que a noiva tivesse que ser pega no laço, como foi o caso da minha bisavó. Conta-se em minha família, originária de Minas Gerais, que a minha bisavó foi capturada por sertanistas em uma comunidade indigena Tapuia. O historiador Sérgio Buarque de Holanda lembra que os invasores se habituaram tão bem como os nativos que comiam dos produtos que eles plantavam e dormiam nas redes deles. Sertanistas como Manoel Correia, Francisco Lopes Bonavides, Lourenço Castanho e Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhangüera pai, constam como os primeiros a pisarem oficialmente nas terras goianas.
Bartolomeu Bueno da Silva Filho (Anhanguera II;Diabo velho) saiu de São Paulo em 1722 em busca de ouro e pedras preciosas. Em 1720 havia enviado suas apresentações ao Rei de Portugal D. João V pedindo licença para retornar a Goiás. Em 1673, enquanto acompanhava o Anhanguera pai, ele, aos 12 anos, afirmou ter tido uma epifania: viu um lugar mágico chamado de Arrial de Araés e Martírios que são terras lendárias onde haveria tanta abundância de ouro na superfície que seria possível coletá-lo com as mãos. Em sua viagem enfrentou toda sorte de problemas, se perdeu após atravessar o rio Paranaíba, perdeu-se de novo no planalto onde hoje é Brasília e foi atacado pelo povo Crixás onde hoje é Formosa. Mas teve a alegria de encontrar muito ouro. Regressa em 1726 em uma segunda expedição. Explora as regiões onde hoje é Mato Grosso e foi ele que em 25 de julho de 1727 (quase completando os 300 anos) fundou o Arraial de Sant'Anna, Villa Boa de Goyaz, a Cidade de Goiás. Veja que o Anhanguera II sai de São Paulo, passa por Minas e deveria seguir rumo a oeste e certamente passaria por Luziânia. O alferes Silva Braga, cronista da bandeira, escreveu que o teimoso Anhanguera subiu rumo ao norte. Foi então que o trecho após Minas Gerais, a Serra dos Cristais, o rio São Bartolomeu e a futura Santa Luzia ficaram inexplorados. Mas 20 anos depois nosso personagem apareceu!
Antônio Bueno de Azevedo era natural de Atibaia, São Paulo, era filho de Francisco Correia de Lima e Joana Batista Bueno. Embora não exista documento que registre precisamente sua data de nascimento, minhas pesquisas parecem indicar que ele provavelmente nasceu entre 1695 e 1703. Essa estimativa se baseia tanto em critérios cronológicos quanto em aspectos culturais da época. Uma das evidências mais relevantes é o fato de receber o nome “Antônio”, o que sugere a possibilidade de ter nascido no mês de junho, período dedicado a Santo Antônio, celebrado em 13 de junho. Era comum na tradição católica portuguesa e paulista nomear as crianças de acordo com o santo do dia ou do mês do nascimento. Casado com Maria de Rocha Bueno, não deixou descendentes. Apesar de que consta nos registros paroquiais de Santa Luzia, que uma escravizada deu a luz a um rebento e que ele fez questão de ser o padrinho de batismo. Pessoa tão ilustre batizando um filho de escravizada. Pertencia a uma das tradicionais famílias paulistas ligadas ao sertanismo, possivelmente aparentada aos célebres Bueno que marcaram a história das bandeiras, como Amador Bueno e Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera.
Neste episódio exploramos muitas histórias e curiosidades da ancestralidade, povos originários, origem de Goiás, primeiros exploradores e do nosso personagem. Vamos agora conhecer melhor como foi a vinda de Antonio Bueno de Azevedo para Santa Luzia.